2ª parte MAR PORTUGUÊS, poema 23: O MOSTRENGO

 "O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: "Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo="

E o homem do leme disse, tremendo:

"El-Rei D. João Segundo!"


"De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?"

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso,

"Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?"

E o homem do leme tremeu, e disse:

"El-Rei D. João Segundo!"


Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

"Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!"

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