2ª parte MAR PORTUGUÊS, poema 27: FERNÃO DE MAGALHÃES

 "No vale clareia uma fogueira.

Uma dança sacode a terra inteira.

E sombras disformes e descompostas

Em clarões negros do vale vão

Subitamente pelas encostas,

Indo perder-se na escuridão.


De quem é a dança que a noite aterra?

São os Titãs, os filhos da Terra,

que dançam da morte do marinheiro

Que quis cingir o materno vulto -

Cingi-lo, dos homens, o primeiro -,

Na praia ao longe por fim sepulto.


Dançam, nem sabem que a alma ousada

Do morto ainda comanda a armada,

Pulso sem corpo ao leme a guiar

As naus no resto do fim do espaço:

Que até ausente soube cercar

A terra inteira com seu abraço.


Violou a Terra. Mas eles não

O sabem, e dançam na solidão;

E sombras disformes e descompostas

Indo perder-se nos horizontes,

Galgam do vale pelas encostas

Dos mudos montes."

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